Dia Internacional das Mulheres: Balanço

Márcia Dolores Resende 

 

Naturalmente, com a chegada de março, o tema da Mulher e seus diversos papéis volta à tona como um chamado ou apelo. Sempre fico em dúvida, talvez por ser – ou melhor, estar – “loira”, eu duvide de algumas percepções.

Brincadeiras à parte, acredito que esse é um dilema dentro do balanço: a constante insegurança sobre se estamos de fato aptas a vivermos e recebermos o merecimento de um trabalho bem feito, uma vida promissora, termos uma ambição saudável e uma vida pessoal de satisfação?

A ação ainda é como se estivéssemos no século XIX, experenciando uma batalha para provar que temos competência e que merecemos condições dignas como oportunidade, ganhos, reconhecimento e crescimento escalando posições estratégicas por competência.

Talvez, ao ler o que escrevi, você pense: Márcia, essa é a realidade, ainda temos muito para chegar a dignidade de receber méritos concretos como ganhos financeiros e crescimento em posições estratégicas na mesma proporção que os homens!!

Nossas condições estão parecem sempre aquém...

 

Exatamente por isso, permanecer presente ao longo de tantos anos , concluo que ainda estamos presas a um modelo mental, que determina parte de nossas experiências no âmbito profissional e pessoal.

 

Por isso selecionei algumas declarações, nessa data festiva, para uma reflexão ativa. São declarações coletivas de mulheres no ambiente profissional, que quando escuto , sinto grande desconforto por explicitarem esse modelo mental que limita e educa nossos filhos e filhas, por meio de crenças e atitudes, que ainda minimizam a nossa experiência em ser mulher!

Então quero compartilhar com vocês, algumas expressões que ouço ao longo das minhas interações com profissionais no mercado:

 

Mulheres fortes assustam!

 

Essa frase, quase jargão na minha opinião ultrapassado, mostra que estamos explicitando uma força diferente da nossa autentica força suave feminina, possivelmente uma força masculina que traz pressão em mostrar o seu valor.

Nada natural com a nossa estrutura e nossa forma de pensar e agir, que é divinamente sensível e focada em sua essência feminina.

E quando estamos no equilíbrio de nossa identidade e habilidades podemos compor no ambiente profissional com os nossos colegas homens com maior ganho para ambos!

A duas semanas li um artigo do Raj Sisodia falando sobre "os lideres serem mais femininos", apesar de compreender o que ele solicita como experiência para os homens na liderança, percebo que ainda a sua sugestão é binária dos homens serem mais femininos, quando estamos vivendo um momento sistêmico onde o evolutiva na liderança seria termos homens e mulheres compartilhando e se desenvolvendo.

Em um ponto da entrevista ele cita as mulheres como uma categoria em busca de espaço e em nenhum momento de ambos trabalhando sinergicamente suas fortalezas, afinal a visão predominante é individualista e pouco complementar ou de aliança.

Verdadeiramente poderíamos educar mais os homens e mulheres para atuarem em aliança no mercado de trabalho, estimulando cada um a trazer para os negócios o seu melhor e termos equilíbrio que vem das diferenças e das semelhanças.

Essa é uma atitude mostraria que de fato estamos conquistando um lugar com dignidade, tanto homens como mulheres no ambiente profissional!

 

Somos desvalorizadas no ambiente profissional!

 

A desvalorização começa internamente sempre, quando um profissional sente pouca valia, sempre a experiência de desvalorização é interna, o que obviamente fará o profissional entrar em situações externas que mantém o reforço de que a desvalorização é uma "sina".

E normalmente faço uma pergunta para as profissionais que acreditam nisso:

Quantas profissionais mulheres você valorizou no ultimo mês?

Quantas profissionais você está preparando para sucedê-la?

Quantas mulheres você busca como advisers e quantas são inspiradoras como modelo de gestão?

Quantas profissionais você tem como aliadas para o ajuda-las no crescimento profissional e que também te auxiliam?

Quantas vezes nos últimos 4 meses você elogio abertamente as profissionais mulheres pela entrega e resultados com seus colegas?

A razão para realizar essas indagações é que como desejo a valorização de profissionais mulheres se no meu cotidiano faço pouco ou nada esse movimento. Ainda percebo muito timidamente mulheres gestoras com ações efetivas de impulsionar a carreira de outras profissionais.

Teremos maior valorização se pararmos de comparar nossa forma de conduzir a dos nossos colegas de trabalho do sexo masculino , reconhecermos o valor da nossa forma sem desqualificar as demais e valorizarmos efetivamente outras profissionais com autenticidade.

 

Ganhamos menos e entregamos igual!

 

Primeiro ponto dessa colocação: como nos posicionamos diante de um fato como esse? 

Eu costumo brincar que nós mulheres, na maioria das vezes, temos uma síndrome de “Princesa” no trabalho, algumas na vida!

Esperamos que nossos gestores adivinhem nossa ambição e nossos desejos em nossa carreira.

Como a atividade de ler pensamentos não é exatamente fácil, quase sempre há frustração!

Habitualmente identifico , em meu trabalho, que as mulheres entram num desafio profissional sem esclarecer objetivos, mensuração das metas, o que desejam como ganhos e a possibilidade de crescimento.

Como se tudo estivesse implícito e sem checar o que de fato pode estar explicita e o que certamente ficou implícito.

Na maioria das vezes sem alinhar as expectativas dos envolvidos e construindo assim um “solo” fértil para decepções, cobranças internas e por vezes externas !

Então é importante ousar e comunicar com veracidade, gosto de fazer um convite que a comunicação flua do coração, dele vem a coragem que significa : ação com o coração!

Há dois anos, num trabalho de Cultura Corporativa em contato com uma executiva, perguntei o que estava realizando para chegar ao próximo nível de VP.

Ela me olhou com espanto e disse: não quero essa posição! Dá muito trabalho e exige muito!

Eu insisti, pois a resposta não soava congruente, seu corpo e voz me diziam coisas desconectadas!

Alguns meses após nossa conversa, nos encontramos para uma reunião sabia que seu par havia sido promovido para a posição que falamos no passado recente.

Perguntei como ela percebeu a mudança e quais os impactos produtivos?

Ela começou a falar como uma adolescente em fúria, que a promoção havia sido dada para seu antigo par um "Homem"!!!

Iniciou um discurso de que as mulheres são preteridas, e quando tomou fôlego para engatar em outro comentário, eu gentilmente interrompi e lembrei que ela mesma abriu esse caminho ao mandar mensagem dupla, inclusive em nossa conversa no passado recente, ela afirmou com total incongruência que não queria a posição...

Portanto lembrei que ela estava vivendo o que planejou, afinal podemos planejar nosso futuro e trabalhar para conquista-lo!

A síndrome de princesa é recheada de mensagens dúbias, como a situação dessa profissional e de tantas outras, que se negam a serem claras pois isso seria ofensivo para a identidade de uma mulher!

Como se o real valor profissional está ser promovida, reconhecida, valorizada sem que haja uma comunicação objetiva de expectativas futuras, entrega de resultados especificadas e forma de avaliar e reconhecer definidas!

Algumas profissionais acreditam que, além de serem mulheres, terão que se expor ao falar sobre suas ambições e aspirações, o que realizam e o que podem realizar.

Novamente, isso faz parte de um modelo que vem sendo reproduzido como uma verdade e, como tal, o cérebro busca agir para confirmar o que se acredita.

Definitivamente esse modelo é ultrapassado para um mulher que deseja desenvolver-se com auto respeito, agir como uma princesa é infantil , agir como uma mulher que tem capacidades, objetivos e que sempre está aberta a aprender é muito mais divertido!

Sem nos darmos conta, entramos nas empresas com essa atitude de “apesar de ser mulher”.

Quando entrarmos com a atitude que somos o que somos e queremos entregar o nosso melhor e receber o melhor, como um aspecto natural, estaremos mudando significativamente nossa jornada e a das próximas gerações.

 

Somos discriminadas!

 

Talvez a forma de discriminar comece em como educamos os nossos filhos que futuramente serão os homens e mulheres, que citamos que discriminam, há alguns ano, talvez desde que a Nova Mulher surgiu no final do século XIX e inicio do XX, a orientação ainda permaneceu com discriminação, pois foi para o extremo e lá permaneceu.

Possivelmente temos por meio da educação e do exemplo a oportunidade de construir gerações colaborativas e que compõem em harmonia utilizando a beleza que vem das mulheres e dos homens alinhados a objetivos comuns, dentro das organizações e na vida.

Ampliando os benefícios dessa composição entre um homem e uma mulher, pode ser saudável, produtiva e geradora de inúmeros resultados que não seja, unicamente o de aumentar uma família.

A discriminação está na mente e portanto é possível mudar.

Quando praticarmos em nosso modelo mental a dignidade com o nosso trabalho considerado o Ofício Sagrado, como profissionais, e considerarmos com dignidade outras mulheres, deixaremos o padrão de discriminação para o passado, sem achar que temos que ter privilégios por sermos mulheres e sim de termos internamente, antes, a dignidade, o respeito e a liberdade de escolha como qualquer ser humano e, ao mesmo tempo, reconhecendo que temos características femininas que são valiosas no ambiente profissional e na vida.

 

Desprendidas dos estereótipos fakes de “Supermulheres”, “Poderosas” ou " Mulheres Masculinizadas".

 

Nesse momento seremos capazes de olhar os homens com dignidade, respeito e liberdade para negociar, comunicar-se e agregar valor com as semelhanças e diferenças. Para ter dignidade e respeito é fundamental antes pratica-lo!

Então, meu maior desejo para o Dia das Mulheres é mudarmos essas crenças. Mudando o nosso mindset e agirndo com a doçura do feminino, mantendo nossas competências e resultados, sem fazer a escolha dual ineficaz de ser mulher ou ser profissional, podemos vivenciar as duas possibilidades com naturalidade, inteligência, generosidade e graciosidade para pensar diferente , agir diferente e fazer a diferença..sendo Mulher!!!!