As complexidades da vida profissional de uma mulher

27/09/2017 |

Talvez a alma feminina tenha uma conexão com aspectos mais sutis da vida e das emoções, naturalmente sem assumir isso como verdade absoluta. Até porque não acredito em verdades absolutas.

É preciso admitir, porém, que o invisível e a leitura das expectativas externas são importantes em nossa educação como mulheres.

Compreender o que ainda nem foi dito e se adequar ao que é esperado continuam sendo legados em nossa formação informal. O que, na atualidade, pode gerar mais dicotomias do que há duas gerações passadas.

Naturalmente essa visão dicotômica influenciou o modelo de "liderança" e gestão de carreira que as mulheres desenvolveram.

Apesar do espaço conquistado no mercado de trabalho, a mulher aprendeu que, para sobreviver, é quase essencial ir para um extremo de "força" e uso de poder com similaridade ao modelo masculino.

Como se, implicitamente, houvesse um teste a ser realizado para que a mulher prove seu valor. Esquecendo que a sabedoria estratégica mostrará onde há valor.

Essa forma de gestão da carreira adotada por muitas mulheres é o ponto que quero explorar neste texto. Por que, na minha opinião, ele desconecta as habilidades femininas mais sutis.

Então, vamos desmistificar algumas das "verdades" limitadoras na vida profissional de uma mulher.

1. Demonstrar fragilidade no ambiente profissional é nocivo à carreira.

Não foram poucas as ocasiões em que ouvi isso de mulheres. De fato, chorar ou demostrar frustração com reações de agressividade é indevido para qualquer profissional, de qualquer sexo.

Agora, expor dúvidas consistentes e colocar uma opinião com humildade para ouvir e compor em conjunto são habilidades em que nós, mulheres, teríamos um amparo de competências naturalmente disponíveis. Principalmente se reconhecêssemos que temos diferenças produtivas!

Ser igual aos homens é um contrassenso, ser competente como um profissional é bom senso.

Muitas executivas negam tanto a possibilidade da competência essencialmente feminina que, quando peço para que citem dois modelos de liderança – um homem e uma mulher –, normalmente recebo com facilidade apenas a primeira parte da resposta. 

Citar um modelo feminino de liderança é desafiador possivelmente por causa de um padrão mental que invalida o que é a nossa natureza, a condição de mulher.

Embora ainda seja tímido, já existe em alguns ambientes corporativos um movimento de estímulo às executivas para que usem mais sua competência intuitiva e tragam a sabedoria das emoções e da leitura do que nem sempre é tão visível, porém decisivo para os negócios. 

2. Ser percebida como mulher atrapalha a evolução da carreira. É importante mostrar a minha inteligência em primeiro lugar.

Por incrível que pareça, ainda escuto essa afirmação que embuti uma crença limitadora de que ser mulher é estar desprovida de inteligência.

Essa afirmação é quase infantil. É como solicitar a uma pessoa que desconsidere a forma como o cérebro a reconhece. Ter segurança em Ser pode ser a primeira forma de expressar a inteligência.

Pessoas inteligentes consideram que outros são inteligentes também e respeitam a inteligência de todos. Querer que me vejam diferentemente do que sou é um ato de descrédito para com a inteligência alheia.

A inteligência é percebida sem esforços, ela é naturalmente apresentada com elegância.

3. Tenho que ser forte e fria para crescer.

Novamente, nessa forma de pensar, o parâmetro de comparação é a liderança masculina. Uma liderança que eleja a força como condição estará certamente míope diante do objetivo maior de se ter liderança.

Nós mulheres, temos força, tanto quanto os homens. A forma como , porém o "como" acessamos nossos potenciais para obtermos sucesso, porém, é diferente. E é bom que seja assim, afinal, somos diferentes.

Podemos sentir as mesmas coisas como seres humanos, mas a forma de mobilizarmos os potenciais com sabedoria é diferente! 

Quanto mais respeitarmos essa diferença e agirmos em aliança, melhores serão os resultados!

4. É Impossível ser feliz na carreira e na vida pessoal.

Muitas mulheres ainda cultivam esse pensamento binário. De fato, uma vida como a de minha avó – dedicada ao lar sem a menor infraestrutura e aos filhos e netos em tempo integral –, em comunhão com uma carreira, seria uma ideia, no mínimo, desafiadora.

O mundo, porém, evoluiu. E os modelos contemporâneos de família, com novas formas de conciliar a vida doméstica e os papéis de cada um na união afetiva e emocional, nos permitem ampliar a forma de pensar sobre o equilíbrio de objetivos e papéis.

5. Tenho que ser melhor do que um homem para provar minha competência.

A beleza está em ser quem se é. E em reconhecer que o seu comparativo de "ser melhor" terá qualidade quando você usar as suas próprias referências. Por exemplo: sou hoje melhor do que era ontem.

Querer ser melhor que um homem é construir um padrão limitante. Que pressupõe competição com um comparativo desleal. Quem foi que disse que, para ser reconhecida em suas competências, a mulher precisa ser melhor do que um homem? Quem foi que disse que um sucesso é sustentável se estiver competindo com profissionais que trarão a melhor complementaridade?

Mulheres e homens, alinhados a um objetivo, podem compor muito mais do que se estiverem disputando. As empresas, as famílias, o mundo poderá ter muito mais se mulheres e homens usarem as contendas saudáveis voltadas para um objetivo.

Viver a condição feminina no ambiente corporativo como um diferencial competitivo, agregando valor ao negócio, às pessoas e ao sistema pode ser a grande medida de sucesso!

Então que hoje, independente do dia, seja um dia de gratidão. Por ser quem se é, com todas suas características e singularidade!

Marcia Dolores